Saramago

Saramago

"O debate tinha chegado
ao fim. Dois sábios tinham arguido os seus pontos de vista
tão opostos como o fogo e a água. "a Pilar como
se dissesse água". Tinham brandido naipes de conceitos que
buscam há décadas em abismos de
milénios profundos. E jogaram-nos em palavras de infinita
precisão. Mais de 70 anos de um lado. Mais de 80 do outro: –
Não tenho 87. Tenho 86. Diz um grito de rispidez de quem
sabe que doze meses de vida são 365 milhões de
eternidades. Ou 366. "a Pilar, que não deixou que eu
morresse".
"Também eu estive
muito doente, de resto só esta semana é que
voltei a dar aulas" disse o outro. Falaram de Deus e de deus com a
eloquência dos conhecedores que já tinham
pressentido os fins de tudo e tinham regressado mais um bocadinho. " a
Pilar, os dias todos". Falaram da Palavra que ficou repetida em mil
livros e mil línguas. "a Pilar, que ainda não
havia nascido, e tanto tardou a chegar". Falaram da palavra que ficou e
da que foi perdida. Da palavra do senhor que não se ouviu e
da do Senhor que foi inventada. Falaram do princípio dos
tempos que os dois procuram como nómadas por desertos
ouvindo os murmúrios divinos que ambos julgam escutar. Um,
os silêncios. O outro, os cânticos. Discutiram tudo
isto com um reluzente brilhantismo apaixonado. Falaram sempre com uma
afagante cordialidade que contagiou. Que enterneceu. Que foi solene.
Que foi importante. Um apelo no fim. "Que a
Declaração Universal dos Direitos do Homem inclua
o direito à dissidência. E o direito à
Heresia. "Oh homem, você não pode ser herege,
não precisa disso se não acredita. Eu sim. Se
escrevesse isso seria herege". Disse, defendendo as imagens e
interpretações que vão adaptando o bem
e o mal divino à vontade humana. "Mas quem é que
vos deu o direito para alterar…para interpretar a
Bíblia". E acabou. Infelizmente. Carreira das Neves o
Catedrático franciscano foi o primeiro a levantar-se e a
chegar-se a Saramago (ainda sentado) e num longo afago mascarado de
aperto de mão prometeu uma ida a Lanzerote. "Qualquer dia".
"Isso enchia-me de felicidade" Disse Saramago abrindo mais um sorriso
delimitando infinitos pactos de entendimento numa arca de
alianças eternas dos homens de boa vontade. Eu fiquei aos 62
anos subitamente cheio de vontade de chorar e de gratidão.
Porque vivo no país de Saramago que tem como
pátria a minha língua. Porque viajo com ele em
jangadas de pedra que cruzam atlânticos e em passarolas que
passam por cima da profunda maldade dos banais. Porque saltito pelas
cortes de reis passados e impérios futuros montado no
elefante mágico que ele nos deu para impressionarmos o
universo. Porque sou também da pátria dele e sei
que ele há-de viver por muitos anos nas ruas da minha cidade
e ocasionalmente eu posso cruzar-me com ele, como a Joana Latino, minha
colega, disse que gostava de fazer quando o entrevistou em Lanzerote.
Porque ele vai continuar a ajudar-me a entender mais mundos que ainda
não foram descobertos e que ele já conhece,
porque viveu sempre na terra de amanhã onde eu nunca entrei.
E que mos vai dando um a um. E eu fico mais rico. Porque ele vai
continuar a começar os seus livros com
dedicatórias encantadas com os hinos à vida de
infinita beleza que só ele sabe compor. "a Pilar, a minha
casa". Porque "sábio é o que se contenta com o
espectáculo do mundo" como disse Ricardo Reis no ano da sua
morte. Porque só há um país no mundo
inteiro que tem um José Saramago e é o meu
país. E o dele. Graças a Deus."

Mário Crespo
Jornal de Notícias 26-10-2009

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