uma mãe (quase) perdida numa aventura de geocaching

Isto é o registo de uma aventura em busca de uma Geocache.
Uma geocache é mais do que um tuperware escondido no mato.
O geocaching é uma atividade que pode ajudar-nos a sermos melhores. A vivermos melhor. A termos boas aventuras e aprendermos com elas.

Antes do Registo da mãe da familia da “equipa” Caracois Turbo, deixo apenas um pequeno enquadramento. Esta cache surgiu após uma experiência ao estilo “Spacebits Project” (Launch a balloon from Portugal into near space with a bunch of electronics and geek stuff. Recover it.), efetuado por uns amigos geocachers da zona de Aveiro. Lançaram ao ar um balão de hélio, com aparelho com GPS e emissor SMS pendurados. O balão atravessou Portugal e rebentou junto à fronteira, caindo os equipamentos transportados perto de Freixo de Espada à Cinta, num local que não lembra o diabo. Foram recuperar o equipamento e georeferenciar o local com uma Cache, claro.

A cache é esta: ARAE – http://coord.info/GC4TA5T

O registo que me impressionou foi este:

“Ponto de vista feminino:

Medo, sim muito medo. Muita ansiedade, sobretudo quando a noite se fez sentir e a minha desorientação me traiu.

Levar crianças no grupo ainda me fez ficar mais ansiosa. Nunca pensei que um dia colocaria o meu filho numa situação destas, mas mais uma vez, e porque todos os elementos se ofereceram para ajudar com o miúdo caso fosse necessário, toca a andar.

É preciso construir pontes entre nós, e essas pontes de confiança estabelecessem em ambientes mais agrestes. Aprender a confiar, sempre a mesma coisa, sempre o mesmo desafio que espero vencer em cada nova jornada. O geocaching tem sido nesse ponto fundamental. Nenhuma terapia me colocaria tão ao limite e tão em comunhão com todos os meus medos.

Ser mãe é uma coisa estranha que se aprende todos os dias, não existem manuais que nos digam como e quando agir. Não existem receitas mágicas para as relações mãe/filho.

Aprendo a ser mãe todos os dias, e erro todos os dias nesta relação parental. Estabeleço limites mas não estabeleço confiança. Transfiro os meus medos e os meus receios ao meu filho. Tenho um Caracol Turbo (pai) nas relações, que antecipa as minhas ansiedades, que ignora os meus medos, que dá confiança ao Caracolinho, que o ajuda a ser mais e melhor, e sobretudo a superar-se e a vencer-se em cada desafio, por tudo isso um muito obrigado desde já por esta cache e pela dificuldade que é fazê-la.

Através dela foi possível mais uma vez fortalecer a relação pai/filho, ao mesmo tempo que me obrigou a gerir os meus receios, as minhas fobias e mais uma vez a descobrir no Caracol pai, a fortaleza e discernimento humano face ao imprevisto que me continua a apaixonar até hoje.

Passo a passo se foi fazendo a montanha, descobrindo nos metros que ora aumentavam ora diminuíam consoante os zigues eram maiores que os zagues, que o corpo humano é capaz de muito mais do que imaginamos.

Para lá uma alegria contagiante que confrontava contra a agressividade do terreno. Contudo do lusco-fusco se fez noite num instante. As lanternas iluminavam o suficiente mas não acendiam o clarão que a vista necessita para ver tudo.

Quando perdemos a noção do que está ao nosso redor tudo se torna muito mais complicado. Ainda assim íamos animados, era já ali, já não faltava tudo e era possível. Os receios se é que existiram (e existiram com certeza)eram vencidos pela vontade.

Após a descoberta da cache e do pico da euforia do FTF, foi o momento em que todos caímos em nós. Era noite cerrada e era necessário fazer o caminho de regresso.

O que os nossos olhos já não conseguiam ver era assustador. Fazer o caminho de regresso pelo de chegada estava fora de questão, era muito agreste e tínhamos crianças no grupo. Optámos por escolher outro, muito às apalpadelas evitando maiores declives ou subidas mais acentuadas. Escusado será dizer que não valeu de nada. Até encontrarmos o trilho de que falavam, a volta foi grande e sinuosa. Se em alguns momentos víamos lá ao longe as luzes da vila e isso nos dava alguma tranquilidade, momentos depois e por largos minutos deixámos de as ver. Acentuou-se o meu sentido de desorientação, exacerbou-se o meu medo.

A cada gemido do meu filho que seguia à frente pela mão do pai, um aperto no coração, uma dor que vem de lugares que não sei explicar. E dá-se mais um passo, descobre-se mais um entrave, contorna-se mais um obstáculo, e o medo a navegar os sentidos: e se o miúdo cai, e se o miúdo torce um pé,e se… e se… tantos “ses”… que de repente tudo se tornou numa angustia quase incontrolável.

Depois o cansaço que trai os músculos, a noção que é necessário continuar sem sabermos muito bem se vamos demorar uns minutos ou umas horas.

A noção de que alguns dos elementos do grupo tinham levado pouca água, açucares rápidos eram também poucos ou nenhuns, e dou por mim a pensar em coisas que mais ninguém pensa, porque os outros não são como eu, ansiosa. Esta ansiedade mata-me e é essa mesma que o geocaching me está a ajudar a superar.

Levo o miúdo comigo, é só isso que me preocupa e me desgasta. Evito beber a água que lhe pode fazer falta, guardo à parte a água dele. Sei que tenho um rio perto se faltar água, é um recurso, tenho os primeiros socorros comigo, sinto-me mais segura. De quando em vez o telemóvel tem rede, menos mal. E tudo isto me inunda os sentidos e ao mesmo tempo que me desgasta emocionalmente dá-me uma força para continuar que me transforma.

Finalmente alcançamos o trilho, e ainda que desgastada, cansada, uma paz começa a inundar-me. Olho para a frente e em silêncio dou graças pelo caminho feito e por estarmos todos bem.

Mais uma vez um orgulho enorme no pai e no filho. Alguém sabia o que estava a fazer quando colocou no meu caminho há muitos anos atrás (tantos que já deixei de os contar) uma pessoa como o Paulo, que me fortalece, que me preenche, que me ampara e me ajuda a melhorar os dias, que me proporciona uma vida a dois plena de seguranças quando as incertezas me assolam. Pela mesma razão alguém me deu um filho para aprender a amar e para me ensinar a amar, para me ajudar a vencer as angústias e as inseguranças, para me fazer crescer como pessoa, em comunhão comigo mesma e com os outros, e sobretudo para me ensinar a confiar de novo, em mim e nos outros.

A cache é só um ponto no caminho desta grande jornada interior que nos proporciona a sua procura.

Pelo caminho, pela experiência vivida, por tudo o que me foi dado sentir, o meu muito, muito obrigado.”

logCaracoisTurbo

A história contada pelo Pai foi esta:

Caracois Turbo
[Caches Found] 1503
Found it
2014-01-25

“Esta é definitivamente uma cache diferente. Foi talvez a primeira cache do mundo a ser colocada de forma totalmente aleatória, sem intervenção humana na escolha do local. Podia ter caído em qualquer lado, no meio do rio, no meio dos campos ou no mar, mas caiu sim num local bastante interessante, com uma excelente vista para o rio Douro (Duero) e Espanha.

Por ter sido colocada de forma aleatória não cumpre quaisquer regras. Não está perto de nenhuma estrada, nenhum miradouro ou fonte, nem de nenhum VG. Está literalmente num sitio qualquer, onde ninguém passa nem ninguém vai, e num local onde provavelmente andava mais gente em tempos pre-históricos do que actualmente.

Porque todas as caches até então foram colocadas por pessoas, os locais e caminhos são mais ou menos previsíveis, e ao fim de algum tempo conseguimos encontrar as caches quase sem necessitar do GPS. As pessoas são previsíveis e inevitavelmente também os locais das caches. A experiência adquirida noutras caches, com dificuldade e terrenos semelhantes, e superiores de nada serviu aqui. Estimamos mal o tempo necessário e a dificuldade em lá chegar. Estimamos uma hora para percorrer os 500m que nos separavam da cache mas demoramos muito mais. Iamos felizmente mais ou menbos preparados para essa eventualidade, o que se revelou acertado.

Estacionamos os carros e fizemo-nos ao caminho. A presença de camionetas no outro lado da encosta era animadora, pois aparentemente até existia um caminho de terra até lá perto, mas ao fazer a aproximação vimos apenas a distancia aumentar em vez de diminuir, pois é necessário contornar um braço do rio até ao local já avistado. Ai, vimos novamente a distancia a diminuir, só que desta vez lentamente, com cada metro de terreno a ser conquistado e não percorrido. Uma hora depois tínhamos percorrido cerca de 200m apenas, vendo a luz do dia diminuir até se tornar penumbra.

E depois ficou noite. Escura, cerrada e sem qualquer luar. Ali não se vê rigorosamente mais nada. As únicas luzes que vemos são aquelas que levamos, e o GPS mostrava ainda 300m até ao GZ. Tenho a certeza que voltar para trás passou pela cabeça de toda a gente nesta altura, mas ninguém a verbalizou. Continuamos por isso, metro a metro até a uns 50m do GZ onde o acesso nos pereceu completamente impenetrável. Não o foi, mas se até aqui conseguimos progredir lentamente, aqui ficamos parados e tivemos que ali andar um bom bocado de um lado para o outro até encontrarmos um acesso menos mau ao local.

Conseguimos, não sem uns rasgos na roupa e na carne, e com o animo renovado verificamos que ali mais perto, a cerca de 20m o terreno era bom muito fácil. Seguimos o GPS rapidamente encontramos a cache, completamente seca e exactamente como o owner a deixou. FTF alguém gritou e todo o grupo se reuniu ali em volta para ver o que nos tinha levado até ali.

Depois era voltar. Ninguém quis seguir o caminho por onde tínhamos vindo. O GPS mostrava efectivamente outra caminho, também a cerca de 500m que seria certamente mais fácil. Talvez fosse, mas não creio. Sei que demoramos eternidades a lá chegar. Voltamos para trás algumas vezes, passamos riachos escorregadios, subimos e descemos rochas enormes, mas fomos andando, e apesar de lentamente fomos vendo a distancia diminuir.

Até que vimos os restos e uma casa, e junto a ela uma rede… e do lado de lá da rede derrubada um campo de oliveiras, com terreno bem tratado e por onde era fácil progredir. E depois o caminho, que apesar de longo nos levava directamente ao ponto assinalado como PK pelos owners… E dai até aos carros onde finalmente pudemos olhar para cima e apreciar o céu como nunca nenhum de nós tinha visto.

Esta cache é diferente. Não é complicada desnecessariamente, não está escondida para ninguém a encontrar, não está no topo de um monte de difícil acesso, apenas para complicar. Está apenas onde decidiu cair e mais nada, mas se alguém por ventura pensar que por ser simples é fácil está redondamente enganado. Está é uma cache que nos obriga a superar os nossos limites e que nos mostra que conseguimos fazer muito mais do que pensávamos ser capazes.

Obrigado!”

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